"Portanto, fiquem
vigiando!"
Neste
primeiro Domingo do novo Ano Litúrgico, na preparação para o Natal, o texto se
situa dentro do chamado "Discurso Apocalíptico" de Mateus, que
inicia-se em 24, 1 e termina em 25, 46.
Estes versículos (começando em v. 32) respondem a pergunta feita a Jesus
pelos discípulos em v. 3 "Dize-nos quando vai ser isso, e qual será o
sinal da tua vinda e do fim do mundo?" Jesus não se detém em explicitar
datas, mas enfatiza a atitude de vida que deve marcar os seus seguidores sempre,
e não somente quando acham que o fim do mundo se aproxima. Neste discurso, ele descarta qualquer
marcação da data, afirmando num versículo anterior "quanto a esse dia e
hora, ninguém sabe nada, nem os anjos do céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem
sabe” (v. 36).
Jesus
usa imagens da história de Noé. As
pessoas daquela época se preocuparam com nada, nada perceberam - em nossos
termos hoje, poderíamos dizer que eles não souberam ler "os sinais dos
tempos". Por isso, foram pegas de
surpresa, perderam a hora da graça, e se perderam.
Sem
levar a história a pé da letra, podemos muito bem aplicar a mensagem à nossa
situação atual. A Igreja sempre nos
conclama para que leiamos "os sinais dos tempos". Um sinal aponta
para uma realidade mais profunda! Não
basta ficarmos somente com o sinal, temos que descobrir a realidade subjacente
a qual ele aponta.
Hoje
não nos faltam sinais dos tempos - a miséria de milhões dos nossos irmãos e
irmãs espalhados pelo mundo inteiro, planos governamentais cortando todo tipo
de ação em favor da saúde e educação do povo para privilegiar as elites
financeiras, o terrorismo individual e estatal, a exclusão social, a violência
de todos os tipos, a globalização excludente, a urbanização desenfreada a
secularização, o aumento de fundamentalismo religioso. Também tem muitos sinais positivos - as
comunidades de base que anda lutam com resiliência em muitos lugares, na
contramão de movimentos alienados e alienantes em voga, os movimentos
populares, a consciência ecológica, a luta contra racismo e por novas relações
de gênero. O problema é estar atento aos
sinais e saber interpretá-los! Pois
muitos sinais podem ser ambíguos, e temos que ter clareza sobre os nossos
critérios de interpretação da realidade.
O
nosso critério sempre será Jesus - a sua pessoa e o seu projeto de fidelidade
com a vontade do Pai. Os sinais têm que passar pelo crivo da fidelidade a
Jesus, que veio "para que todos tenham a vida e a tenham em
plenitude" (Jo 10,10). Assim, somos
convidados hoje à vigilância (v. 42).
Essa deve ser uma característica do cristão e da comunidade cristã. Vigiemos para que a nossa casa - a nossa
consciência, a nossa comunidade, a nossa prática - não seja invadida por quem
quer o mal, que traz projeto da morte.
Vivendo como somos, em um mudo imerso nos valores e contravalores de uma
sociedade de consumo, cujo Deus é o lucro e cujo evangelho é a competitividade,
é fácil acontecer que a gente absorva esses critérios como por osmose, sem
notar. Assim o "ladrão" entra
na nossa casa por falta da vigilância, para subtrair os nossos bens - a
fraternidade, a solidariedade, a partilha, a nossa fidelidade a pratica de
Jesus, o projeto do Reino, a integridade do universo criado. Assim, quando Jesus, o Filho do Homem, vem
nas realidades da nossa vida, nem o reconhecemos, e perdemos a hora da
graça! Para ser vigilantes, em qualquer
situação, é primeiro preciso que sejamos bem acordados e atentos a realidade
que nos cerca. Quem sabe, com o passar
dos séculos, muitas vezes as nossas Igrejas se acostumaram à “sonolência” na
vida – contentes com a prática rotineira de celebrações, com a vivência de uma
moral burguesa com muitos valores, mas sem sensibilidade social e comunitária,
com uma “pastoral de manutenção”, sem vibração missionária nem
evangelizadora. Advento nos estimula
para que despertemos desse tipo de anestesia ou sonolência diante da realidade
mundial e local de hoje.
O texto não nos remete primeiramente à preparação
de um encontro com Jesus depois da morte, nem na sua Segunda Vinda, mas nos
convida a uma vigilância hoje, para que saibamos encontrá-lo através de uma
leitura correta dos "sinais dos tempos", vigilantes para que não
percamos a nossa razão de ser como cristãos - a concretização do Projeto do
Pai, na construção de um mundo solidário, de fraternidade, partilha paz e
justiça, o mundo do "Shalom" de Deus, o Reino que já se faz presente
entre nós. O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para
descobrir se realmente estamos atentos o tempo todo, para não perdermos as manifestações
da presença de Jesus no meio de nós. É
tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos as nossas forças, para
não cairmos na armadilha da "in-atenção" no meio das preocupações e
barulho do mundo moderno, para que os nossos corações continuem "sensíveis"
aos apelos do Senhor, através dos irmãos e irmãs, no nosso dia-a-dia!
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughessvd@yahoo.com.br
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