UMA PARTIDA SILENCIOSA E SEM
DESPEDIDAS
Ela sempre foi um
ser que guardava suas lágrimas, dores e sofrimentos em uma caixa blindada pelo
silêncio.
Muitas e muitas
vezes ela era surpreendida, por um dos filhos, em algum canto isolado da casa,
enxugando com a ponta do avental, lágrimas que teimavam em rolar pelo seu
rosto.
Poucas foram as
ocasiões em que conseguimos um desabafo, que expressasse os motivos daquele
pranto. Qualquer técnica, qualquer manobra era válida para não contagiar um
filho com sua tristeza.
E, foi assim que
ela partiu.
Seguindo para o
hospital ao lado de seu filho Jean, debruçou-se lenta e silenciosamente sobre o
painel do carro em movimento, mas já não mais respondia às perguntas de seu
filho; seu pulso também cessou e sua pele adquiriu uma temperatura tal qual
aquela que precede a chegada sorrateira da inevitável força natural que nos
arranca compulsoriamente a vida.
Daquele momento
em diante, as tentativas médicas utilizadas, foram meros meios artificiais e
mecânicos de “manutenção” de vida, sem qualquer resultado eficaz.
Decorridas pouco
mais que doze horas, seu coração deixou de obedecer às máquinas que
teimosamente ainda ligavam-na ao nosso mundo.
Cercada por dois
de seus filhos, ela partiu silenciosamente, da mesma forma com que, ao longo de
sua vida, deixava correr suas lágrimas nos momentos de tristeza.
Sua partida
natural ocorreu em 28 de novembro de 2005, mas por considerarmos as horas
artificiais de vida que sobrevieram à decisão implacável da natureza, somos
compelidos a admitir que sua partida oficial ocorreu no dia 29 daquele mesmo
mês e ano.
Partiu como
sempre viveu: discreta e serena.
VERSOS DISPERSOS NASCIDOS DA DOR
Na semana
seguinte a sua partida, sua filha Léslie, vivendo um inconformismo que até hoje
persiste, escreveu algumas palavras dispersas, que formaram versos despidos de
qualquer técnica, mas que tentaram descrever a dor maior vivida por alguém que
perde um ser amado:
E ela se foi...e com ela foi minha alma
Agora, ambas já seguem distantes...
E a falta que me fazem, transcende minha mente.
Deixou em meus olhos a lágrima que embaça as cores, que pinga o verso e
tatua o poema da vida.
Com certeza, hoje minha mãe tem a liberdade dos pássaros, e pode abraçar
todos os raios do sol.
Posso vê-la atravessando iluminados arcos de luz.
Com certeza, só partiu porque no céu faltava uma estrela.
E, para subir uma estrela, caíram sobre o mar os meus jardins suspensos.
E extinguiu-se a canção que era a voz da vida.
Restou um vazio sem forma, que guarda apenas a voz do meu silêncio...
Hoje, uma pequena
parte destes escritos está gravada em uma placa de bronze, que identifica o
jazigo e morada definitiva do corpo de sua mãe. Fica no Cemitério Jardim da
Paz, na cidade de Porto Alegre/RS.
É um lugar
inteiramente coberto por um belíssimo e encantador gramado, repleto de
belíssimas árvores e caramanchões de flores. Um pedaço mágico de terra, cujos
canteiros de flores lembram aquelas que eram tão bem cultivadas por suas belas
e delicadas mãos.
E, apesar de ter
decorrido um lapso de oito anos de sua partida, seu filho Jean ainda preserva
suas plantas e flores, principalmente suas orquídeas.
E sempre que elas
florescem, seus galhos cedem gentilmente os seus mais belos exemplares. Seu
filho, então, as leva e enfeita a última morada de sua mãe, com as flores, que
um dia, através de suas mãos encantadoras iniciaram seus ciclos de vida.
Estamos certos
que hoje ela passeia por belos campos floridos e tem sua morada em um espaço de
paz eterna, que Jesus Cristo lhe reservou.
Reiteradamente,
sob um sol nascente infinito ela se reúne com sua mãe, avó e suas queridas
irmãs e entabulam intermináveis debates sobre as melhores técnicas para fazer a
barra invisível de um vestido; ou para bordar uma blusa, cheia de pedrarias e
lantejoulas, em tempo recorde.
Mas, de repente,
alternando o assunto, discute-se sobre uma nova receita de Pão- de- ló, que é
mais trabalhosa, mas, infinitamente mais deliciosa. Isso, sem falar naquele
pudim de claras, decorado com cerejas naturais.
Seu pai e os
demais membros masculinos da família que também já partiram, espiam a reunião a
uma certa distância. O assunto, aos olhos deles é incompreensível e babilônico.
Mas também
sabemos que, em meio a este burburinho de falas, risadas, receitas culinárias e
técnicas de costura, ela olha para o infinito e em seu espírito surge a
lembrança terrestre das tardes em que esperava seus quatro filhos chegarem da
escola, para servir-lhes dourados biscoitos de polvilho regados ao perfume
incomparável do seu chá de erva cidreira.
Mãe, você foi o mais belo
paradigma de mulher e de mãe que eu conheci. Sonho em poder um dia encontrá-la
novamente. Onde estiver, saiba que o mais belo evento da minha existência foi
poder ser sua filha, conhecê-la e conviver com alguém que amei e amarei
tanto...e pra sempre. Léslie
“ A vida não passa de uma oportunidade de encontros; só depois da morte
se dá a junção; os corpos apenas tem o abraço, as almas tem o enlace.”
( Victor Hugo
)
Mãe: Você já tem a oportunidade desse enlace com as almas que lhe foram
queridas no plano terrestre. Um dia todos nós teremos essa mesma oportunidade.
Espero um dia encontrá-la para esse enlace.
Sua filha Lilian que jamais a esquecerá.
Gercia, em sua última visita, a sua irmã Iracema, em São Jose'dos Pinhais - Paraná.
Texto: Escrito por Leslie, com a colaboração de Lilian, e aprovação dos irmãos,Juarez e Jean.
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