“Olhou
para a humilhação da sua Serva”
Pode-se dividir este texto em duas
partes – a história da visitação da Maria à Isabel, e o “Canto de Maria”-
ou “Magnificat”. Reduzir o sentido da Visitação a um simples
gesto serviçal da parte da Maria para com a sua parente idosa, seria empobrecer
muito o pensamento de Lucas. Esta cena é
altamente simbólica – Lucas quer mostrar o acolhimento do “Novo” (representado
por Maria e Jesus) por parte do “Antigo”, (representado por Isabel e
João). Isabel, símbolo de todos os
justos da Antiga Aliança, inspirada pelo Espírito Santo, proclama Maria “bendita entre as mulheres”, usando uma
frase usada no Antigo Testamento para duas mulheres lutadoras, que ajudaram na
libertação do seu povo, Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jt 13,18). Assim, apresenta Maria como mulher corajosa,
que, animada pela fé em Javé libertador, colabora na luta pelo mundo que Deus
quer. Esse mundo, a irrupção do Reino de
Deus, já é inaugurado com a chegada do seu Filho: “Bendito o fruto do seu ventre”. Neste trecho é importante destacar o motivo
pelo qual Maria é bem-aventurada: “Feliz
aquela que acreditou”. Para Lucas,
Maria é bendita não pelo simples fato da maternidade, mas porque ela é o modelo
da fé. Ela acreditou na promessa do
Senhor – não somente a promessa da gravidez, mas no projeto de Deus, desde
Abraão, de dar ao seu povo a terra, a descendência e a benção. Enfim, a promessa da realização do projeto do
Reino.
O Magnificat, que Lucas põe na boca
da Maria, é uma composição literária magistral, inspirada no Canto da Ana (1
Sam 2,1-10) e outros trechos do Antigo Testamento. Expressa a espiritualidade dos “Pobres de
Javé”, os deserdados dessa terra, que, apesar de tudo, acreditavam no projeto
libertador do Deus da vida e na chegada de uma sociedade justa. Maria exulta, pois experimentou que Deus
olhou para a sua pequenez e humilhação.
Ela celebra a mudança radical que o Reino traz – os poderosos, soberbos
e ricaços serão derrubados e os pobres, humilhados e famintos erguidos.
Esse retrato da Maria contrasta
muito com a personalidade passiva e pálida que muitas vezes inventamos para
ela. A Maria de Lucas é uma figura pobre
e humilhada, mas forte e batalhadora, como tantas mulheres das nossas comunidades
hoje. Diante das forças opressoras do
seu tempo (o abuso do poder religioso e econômico, o machismo, o racismo) ela
canta a experiência do Deus libertador, do Deus da vida, do Deus que se encarna
no meio dos oprimidos. Essa Maria nos
desafia para que nos unamos na luta pela construção do Reino, sem pobres e
ricaços, humilhados e soberbos, dominados e dominadores. No nosso mundo, pelo menos tão opressor
quanto naquela época, esse texto questiona as nossas opções reais da vida. Seremos bem-aventurados na medida em que nós
acreditamos e nos empenhamos na construção de um mundo mais fraterno, justo e
igualitário, conforme a vontade e o projeto de Deus, celebrado por Maria no
Canto do Magnificat e demonstrado na pessoa e missão do seu Filho Jesus.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Imagem: Google (http://www.a12.com/ )

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