“Sem mim, vocês não podem fazer nada”
Esse texto inicia a seção do quarto evangelho que tem os
trechos que mais se aproximam aos discursos da vida pública de Jesus nos
Evangelhos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João - a da
vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e os
seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15, 18-16, 4) vai tratar do
ódio do mundo (as forças do anti-Reino) para com os seus seguidores.
No Antigo
Testamento frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida
de Deus, que “Ele” cuidava com muito amor, mas que deu frutas amargas. Na
primeira parte de João, o autor demonstra como Jesus substitui as instituições
e festas judaicas; agora, “Ele” se manifesta como a vinha do Novo Israel. Se
ficarem unidos a “Ele”, os discípulos/as darão somente frutos que agradarão ao
vinhateiro - o Pai. No Antigo Testamento, Deus muitas vezes ameaçava podar ou
até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do Novo Israel não falhe,
sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados.
A Bíblia
sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e
solidariedade. Este tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo
Testamento. Os cristãos somente poderão dar este fruto agradável se ficarem
unidos a Jesus, pois, como ele disse, “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma
vez volta-se à idéia que é pelos frutos que se conhece a árvore.
Assim, nos leva a refletir sobre os frutos que mais de 500
anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina, como foi feito
pela Conferência de Aparecida e o documento publicado por ela. Com uma das
piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de
terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta
gente sofrida, talvez muita coisa tenha que ser podado pelo Pai, para que
realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir
salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de Missa Dominical, mas de semanas
injustas, não agrada o Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de
hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar
bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos
injustiçados, não é a verdadeira Igreja do nosso Divino Redentor” (Discurso
04.12.1977).
Sem dúvida, há muita coisa realmente boa acontecendo nas
comunidades cristãs do Brasil, bem como na sociedade civil em geral, mas o
teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça,
fraternidade e solidariedade e não no lucro, competitividade e na lei da selva.
Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais
comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos
sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neo-liberalismo,
da globalização, das forças do mercado, da corrupção. Seria fácil cairmos na
tentação de desistir da luta para melhorar a sociedade, pois os resultados
parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração
e no compromisso, a “Ele” que parecia também um derrotado, mas que teve a
vitória final na Ressurreição. Se sem “Ele” nada podemos fazer, o contrário é
também verdade - com “Ele” tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos,
mas sem dúvida como colaboradores “d’Ele” na construção do Reino de Deus.
As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em
favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas - às vezes
dentro da própria Igreja - os sofrimentos dos mártires da caminhada e das suas
famílias, são podas - mas podas que darão mais fruto ainda. A eleição do Papa
Francisco e a sua atuação desde eleito, nos trouxeram um novo alento e uma nova
esperança. Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do
judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de
hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós - uma vez que fiquemos
unidos a “Ele , e entre nós, pois “Jesus” mesmo nos disse, “sem mim, nada
poderão fazer”!
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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