“Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”
O
texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o estudo dos
Evangelhos - “o Reino de Deus” e “as parábolas”. Antes de olhar o texto mais de
perto, convém comentar algo sobre esses dois termos ou conceitos.
Existe
um consenso entre os estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes, que
existem duas palavras nos textos evangélicos que provém do próprio Jesus e que
não dependem da reflexão posterior das comunidades: “Reino” e “Pai” “Abbá” em aramaico. Estamos
tão acostumados de ter Jesus como “objeto” da nossa pregação que esquecemos que
Ele não pregou a si mesmo, mas o “Reino de Deus” (geralmente citado em Mateus
como o Reino dos Céus, para evitar o uso do nome de Deus, em uma comunidade
predominantemente judeu-cristã). A vida inteira de Jesus foi dedicada ao
serviço desse Reino, que Ele nunca define, pois é uma realidade dinâmica, mas
que Ele descreve por comparações, usando parábolas. “Parábola” é um tipo de
comparação, usando símbolos e imagens conhecidos na vida dos ouvintes, e que os
leva a tirar as suas próprias conclusões (de fato, várias vezes temos a
explicação de uma parábola nos evangelhos mas essa nasceu da catequese da
comunidade e não teria feito parte da parábola original). O Capítulo 13 de
Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar a
natureza do Reino - ou Reinado - de Deus.
No tempo de Jesus e das primeiras
comunidades cristãs, os diversos grupos religiosos judaicos (com a exceção dos
ultraconservadores e elitistas Saduceus), esperavam a chegada do Reino de Deus
e achavam que poderiam apressar a sua chegada - os Fariseus através da
observância da Lei, os Essênios através da pureza ritual, os Zelotas através de
uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem possível e nem necessário
tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino de Deus, pois ele possui
uma dinâmica interna própria de crescimento. Como a semente semeada cresce
independente do semeador e sem que ele saiba como, assim o Reino cresce onde
plantado, pois também tem a sua própria força interna que, passo por passo, vai
levá-lo à maturidade. Assim, o texto nos ensina o que Paulo ensina de uma
maneira diferente aos coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de
evangelização desenvolvido por ele, Apolo e outros/as missionários/as; ele
afirma “Paulo planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (1 Cor 3, 6).
Uma
das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão de mostarda.
Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se tornar um arbusto frondoso.
Assim Jesus quer que relembremos que é importante começar com ações pequenas e
singelas, pois, pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos grandes.
Esta parábola é um lembrete para que não caiamos na tentação de olhar as coisas
com os olhos da sociedade dominante, que valoriza muito a prepotência, o poder,
a aparência externa. A nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma
oportunidade de semear o Reinado de Deus - ou seja, criar situações onde
realmente reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e
justiça, começando com sementes minúsculas, para que, não através do nosso
esforço, mas da graça de Deus, eventualmente cresça uma árvore frondosa que
abrigará muitos. O desafio do texto é de que valorizemos o gesto pequeno, as
duas moedas da viúva, a semente de mostarda, não nos preocupando com os
resultados, mas, confiantes no poder transformador da semente, plantar e regar,
para que Deus possa ter a colheita!
Tomaz Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
Fonte:www.matrizsaocristovão.com.br

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