"Jesus faz bem todas as coisas"
Os eventos relatados no texto de hoje situam-se no
território pagão de Tiro e Sidônia (hoje, Líbano). Marcos faz questão de
sublinhar o contexto geográfico - talvez para enfatizar a missão aos gentios
(pagãos) que marcava a sua Igreja. Mais uma vez estamos diante de um milagre de
Jesus que manifesta o poder de Deus que age n’Ele, que causa espanto e alegria
entre as testemunhas, e que leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no
território.
Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros - uma
pessoa sofrida (neste caso sofrendo de surdez e incapaz de falar corretamente),
a compaixão da parte de Jesus que o leva a atender o pedido de uma cura, a cura
em si, a proibição de espalhar a notícia (o chamado “Segredo Messiânico) e a
incapacidade das testemunhas de guardar o segredo.
A violação da proibição por parte da multidão traz à tona a
questão da verdadeira identidade de Jesus, dando a impressão de que Ele é muito
mais do que um simples curador! As palavras que expressam o entusiasmo da
multidão diante d’Ele (7, 37) são tiradas de uma seção apocalíptica de Isaías,
sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz presente.
Mais uma vez o Segredo Messiânico em Marcos nos faz
perguntar sobe o seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos
de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que a sua verdadeira
identidade só se revelará na sua Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá, e não diante
dos milagres, que Jesus é proclamado “Filho de Deus” por uma pessoa humana - o
oficial que exclamou ao pé da Cruz, vendo como Jesus havia expirado: “De fato,
esse homem era mesmo Filho de Deus” (Mc 15, 39). Para Marcos, uma fé baseada
nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus por
motivos errôneos, interesseiros e duvidosos. Para corrigir essa tendência na
sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus com o título
messiânico “Filho de Deus” ao pé da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois
só se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais forte do que
a força humana (1Cor 1, 25). Um alerta para muitos cristãos hoje!
A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os surdos
ouvir e os mudos falar” alude a Is 35, 5-6, que faz parte da visão apocalíptica
do futuro glorioso de Israel (Is 34-35, relacionado com Is 40-66). O uso aqui
deste texto vétero-testamentário indica que o futuro glorioso do novo Israel já
está presente no ministério de Jesus.
Podemos ver um sentido mais simbólico para os nossos dias
na cura relatada - o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois, o sistema
hegemônico de hoje, e os meios de comunicação, frequentemente atrelados e
coniventes, procuram em geral tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos
sofridos; pois, fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões,
escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos
noticiários de televisão. Também as forças dominantes deixam cada vez mais os
excluídos sem voz - só pode ter voz ativa quem produz e consome, na nossa
sociedade materialista e consumista. Diante da surdez e mudez físicas, Jesus
cura! O Evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem ajudar as
pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos e para que ajudem a devolver a voz
àqueles a quem lhes foi tirada. Dia 7 de setembro é o dia do Grito dos
Excluídos - uma maneira de as Igrejas e todas as pessoas de boa vontade
assinalarem que a nossa luta está em favor dos excluídos e menos favorecidos, e
que essa atividade não se limita a uma passeata neste dia somente, mas que é a
tônica da nossa ação evangelizadora, retomada com muita força no Documento
de Aparecida e em tantos outros documentos do Magistério e da CNBB, e
sempre enfatizada nos pronunciamentos e escritos do Papa Francisco.
“Jesus fez bem todas as coisas - fez os surdos ouvir e os
mudos falar!” Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais - que
ajudamos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores a tantas
pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante, e que ajudamos os sem-voz a
recuperar a voz ativa, nas decisões das Igrejas e da sociedade em geral.
Pe. Tomaz Hughes SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br
www.matrizsaocristovao.com.br
Pe. Tomaz Hughes SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br
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