“Se
alguém quer ser o primeiro deve ser o último, aquele que serve a todos”
Na estrutura do Marcos, depois da chamada “Crise
Galilaica”, manifestada no episódio da Estada de Cesaréia de Felipe, Jesus muda
totalmente de tática e estratégia. Ele não anda mais com as multidões, quase
não faz mais milagres - dos 19 milagres em Marcos, somente dois acontecem
depois do acontecimento de Cesaréia. Em lugar disso, Ele se dedica à formação
dos seus discípulos, tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros
discípulos, ensinando-os que o caminho d’Ele é o caminho da Cruz, da entrega,
da doação, e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos demonstra isso
de uma maneira bem organizada. Em três ocasiões, Jesus anuncia a sua futura
paixão (8, 81; 9, 31; 10, 33-34). Em cada ocasião os discípulos não compreendem
(8, 32; 8, 34; 10, 35-37), e a partir dessas incompreensões Jesus dá um
ensinamento, aprofundando vários aspectos do verdadeiro seguimento d’Ele (8,
34-38; 9, 35-37; 10, 38-45).
O trecho de hoje trata do segundo desses três
acontecimentos. A causa da dificuldade é a tentação do poder. Embora Jesus
tenha deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento d’Ele é uma vida de
entrega, até à morte, em favor dos outros, os Doze discutem entre si qual deles
era a maior! O poder é tentação permanente em todas as comunidades, não
isentando as Igrejas! Podemos até dizer, com certa dose de humor, que a busca
de poder está no DNA das pessoas humanas! Talvez mais do que outro motivo, a
sede do poder tem sido o que mais tem corrompido nas Igrejas - mais ainda do
que a imoralidade ou a ganância financeira. No século dezenove o estadista e
historiador católico inglês Lord Acton falou que “todo poder tende a corromper,
e o poder absoluto corrompe absolutamente” - e não há poder mais perigoso do
que o religioso, exercido em nome de Deus!
Quantos sofrimentos e males são causados por essa sêde do
poder, disfarçada como mandato de Deus! Desde o fundamentalismo fanático do
Talibã no Afeganistão, até a ufania de certos padres - mormente recém ordenados
- que se ostentam com roupas finas e carros do ano e, de uma maneira opressora,
dominam religiosas e leigos de muito mais experiência e sabedoria do que
eles... a sêde do poder e da dominação, sempre em nome de Deus ou de Jesus,
continua a distorcer a vida de muitas comunidades religiosas, dentro e fora do
Cristianismo. No fundo é por isso que certos setores da Igreja se colocam
frontalmente ou veladamente contra o Papa Francisco. Como escreveu o
teólogo dominicano sul-africano Alberto Nolan OP, “Jesus tem sido mais
frequentemente honrado e venerado por aquilo que ele não significou, do que por
aquilo que ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas,
às quais Ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas,
pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome.” O
poder-dominação é frequentemente um desses elementos.
Diante da recusa dos seus discípulos em entender o seu ensinamento,
Jesus, o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo de quem deve segui-Lo.
Não porque criança é sempre santa nem inocente! Mas porque é sem-poder,
dependente dos adultos em
tudo. No tempo de Jesus criança não tinha direitos e era
entre os últimos da sociedade. Os seus discípulos são convidados a despojar-se
do poder para serem servos, da mesma maneira do que o Mestre, Ele que “não se
apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo,
assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim,
apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se
obediente até a morte, e morte da cruz” (Fl 2, 6-8).
O poder em
si é um bem - para ser usado a serviço dos outros! Todos nós - clero,
religiosos, leigos - somos vulneráveis diante da tentação do poder. Levemos a
sério o ensinamento de hoje, pois só pode ser discípulo de Jesus quem procura
ser o servo de todos! Evitemos títulos, privilégios, e comportamentos que tão
facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que o nosso modelo seja
sempre Ele - e não a sociedade vigente, onde é o poder que manda. A nossa força
vem da Cruz de Jesus, a fraqueza do Deus “que escolheu o que o mundo despreza,
acha vil e sem valor, para destruir o que o mundo pensa que é importante” (1Cor
1, 28)
Pe. Tomaz Hughes SVD
e-mail : thughes@netpar.com.br
Imagem: www.google.com.br -
Pe. Tomaz Hughes SVD
e-mail : thughes@netpar.com.br
Imagem: www.google.com.br -

Nenhum comentário:
Postar um comentário