“A libertação de vocês está
próxima”
Neste primeiro domingo do Ano Litúrgico, Lucas nos
mergulha em um dos discursos escatalógicos do seu Evangelho. Sendo assim, usa
imagens e símbolos que não são da nossa cultura e época, e por isso nem sempre
são fáceis a serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura
apocalíptica não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente - o mais
importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro - não cada imagem
e símbolo, mas a sua mensagem de conjunto.
O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem” - o
título que os Evangelhos mais usam para Jesus e que nós pouco usamos. Este
título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas,
tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha alguém como um filho de homem...
Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o
serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu
reino é tal que jamais será destruído.” ( Dn 7, 13s)
Jesus recorda aos seus discípulos a mensagem de ânimo que
trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a .C. - que embora possa
parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores, sejam mais fortes
do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos
tempos, Deus, através do seu Ungido - o Filho do Homem - revelará o seu poder,
e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora em
Jesus!
Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota
medo nos ouvintes que sofrem as consequências do reino opressor de qualquer
época é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é de
animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central do
nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas
começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de
vocês está próxima.” (v. 28)
Este trecho tem uma dimensão fortemente cristológica -
nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em seu controle todas as
forças, sejam elas de guerra (v. 9) ou do mar - símbolo de forças indomináveis
na literatura judaica da época (v. 25). O versículo acima citado traz uma
mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos
malvados (v. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o
juiz justo, o Filho do Homem.
Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não
caírem. Devem cuidar muito para que: “Os corações não fiquem insensíveis por
causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida.” (v. 34). Pois
é fácil assumir as atitudes do mundo, sem que notemos, a não ser que sejamos
vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também
para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a
fim de terem força” ( v. 36).
O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa
vida para descobrir se realmente estamos atentos o tempo todo para não
perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos
dedicarmos mais à oração, para renovarmos as nossas forças, para não cairmos na
armadilha da “inatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno,
para que os nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, através
dos irmãos e irmãs, no nosso dia-a-dia!
Por feliz coincidência, esse Advento vai ser marcado pelo início do “Ano
Jubilar de Misericórdia” e o Ano Litúrgico que hoje inicia usa nos Domingo
Comuns o Evangelho de Lucas – o Evangelho da Misericórdia, por excelência! Sejamos vigilantes para que a misericórdia
seja característica das nossas relações e para que não caiamos nas ciladas de
atitudes de violência, vingança e dureza de coração, típicas da nossa sociedade
hoje, e tão propagadas pela mídia hoje.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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