“Vinde a mim, vós
todos que estais aflitos sob o fardo e eu vos aliviarei”
A celebração de hoje, de enorme
importância na prática religiosa do povo brasileiro, deve ser vista em relação
com a de ontem, dia 1 de novembro - a Festa de Todos os Santos. É a grande
celebração da “Comunhão dos Santos” - nós, a Igreja peregrina, ontem
comemoramos a Igreja já vivendo a plenitude de vida com Deus; e hoje
comemoramos a Igreja ainda em processo de purificação (a palavra “purgatório”
vem do termo latino que significa “purificar” e não “sofrer”). No fundo,
celebramos o imenso amor de Deus para conosco, todos participantes daquilo que
celebramos todos os domingos no Credo quando declaramos que acreditamos, “Na
Comunhão dos Santos, na Ressurreição da Carne e na Vida eterna”.
Embora para
muitas pessoas a celebração de hoje traga sentimentos de tristeza, pois suscita
lembranças e saudades dos seus entes queridos já falecidos, realmente é uma
celebração de esperança e confiança na bondade, no perdão e no amor de Deus. A
primeira leitura de hoje, tirada do II Macabeus 12, 43-46, lembra que o líder
judeu, Judas Macabeu, organizou uma coleta para custear sacrifícios oferecidos
pela descanso eterno dos mortos, recebendo assim um elogio do autor do livro
junto com o comentário “...belo e santo modo de agir, decorrente da sua crença
na ressurreição! Pois, se ele não
julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por
eles. Mas, se ele acreditava que uma
belíssima recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e
religioso pensamento. Eis porque ele
pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de seus
faltas”.
Nada deve
marcar tanto a vida do cristão quanto a sua fé na Ressurreição. É o fundamento de tudo. Paulo, polemizando com a elite da comunidade
de Corinto, que, influenciada pela filosofia grega, negava a realidade da
Ressurreição do corpo (embora aceitasse a imortalidade da alma, o que é
diferente) insiste: “Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação
e vazia e a nossa fé em
vão. Se os mortos não
ressuscitam, Cristo não ressuscitou. E
se Cristo não ressuscitou, a sua fé não vale nada e estão ainda no seu pecado” (I
Cor 15 , 13-18). Não há reencarnação,
nem somente imortalidade da alma, mas a ressurreição do corpo – seguindo
Cristo, passamos pela morte e continuamos vivos como ele, Primogênito dos mortos, em uma vida plena com Deus. Por isso, hoje torna-se, apesar dos sentimentos
de saudade e tristeza que são naturais, a celebração do fundamento da nossa fé
– a morte foi vencida, o mal é um derrotado, o pecado foi derrubado e
celebramos o grande dom de Deus – que vamos participamos na sua vida plena e
eterna!
Nem sempre
o Povo de Deus tinha esta fé – até quase o tempo dos Macabeus, uns 200 anos
antes de Jesus, se acreditava no Sheol – a “mansão dos mortos”, destino final
de todos, lugar sem vida, sem felicidade.
Por isso se acreditava muito na “teologia de retribuição” – ou seja, que
Deus recompensa os bons já nesta vida com riquezas, saúde e prosperidade
enquanto castiga os injustos com doenças, pobreza e morte precoce. Mas entre os sofridos nasceu um grande questionamento
– isso não se verifica na verdade das nossas vidas. Muitas vezes os justos sofrem, são
perseguidos e carecem de tudo enquanto os malvados se enriquecem e prosperam. Assim, devagar, nasceu a fé na ressurreição
dos mortos, onde a justiça de Deus se manifesta e onde o destino dos justos,
apesar dos seus erros e falhas, é participar da vida plena de Deus. Assim,
Jesus conclama, na Evangelho de hoje, todos os que sofrem para que ouçam a
aceitem a sua mensagem de fé no Deus misericordioso, compassivo, de perdão e
amor, e rejeitem o que foi muitas vezes pregado pela religião oficial do seu
tempo – que os pobres e doentes são os rejeitados por Deus enquanto os
prósperos e abastados são abençoados.
Jesus convida a todos para que assumamos a sua “Boa nova” e lutemos por
um mundo de vida para todos, pois ele veio para que todos - e não somente os
privilegiados pela sociedade materialista e excludente – tivessem “a vida e a
vida em abundância” (cf Jo 10,10).
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br

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