“Mas
Ele falava do templo do seu corpo”
A Basílica de São João Lateranense, a
catedral da Igreja de Roma, é considerada a mãe de todas as Igrejas Católicas
do mundo. Foi construída por Constantino nas primeiras décadas do século
quatro.
No contexto do Quarto Evangelho, esse texto
se situa durante a visita de Jesus a Jerusalém para a primeira das três Páscoas
mencionadas neste Evangelho (nos Sinóticos
só é mencionado uma Páscoa). No
Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro de Israel, o Deus
de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, ele encontra um verdadeiro
mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os
sacrifícios, e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era
aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera
condenação de um abuso. Pois, os animais e o câmbio eram necessários para o
funcionamento do Templo. Como nos versículos precedentes do Capítulo 2, onde Jesus
substituiu a purificação dos judeus no sinal das bodas de Caná, aqui ele
demonstra que o centro do culto judaico perdeu o seu sentido. Pois, a presença
de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e
política, doravante reside em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias
de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem templo nacionalista,
explorador econômico do povo (Jr 7, 11-14; Zc 14, 20-21).
João entende que o verdadeiro e duradouro
templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias - ele usa de
propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mt 26,
61). As autoridades judaicas (não “os judeus,” no sentido de raça ou religião)
destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como vão
destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o
verdadeiro Templo onde habita Deus, na Ressurreição, depois de três dias.
É bom lembrar que a “toca” ou “covil” de ladrões não é o lugar onde eles assaltam e
roubam, mas onde eles se sentem seguros.
Assim, Jesus está dizendo que o verdadeiro assalto contra a vida do povo
se dá no dia-a-dia do sistema econômico-político-social, e que os assaltantes –
a elite de Jerusalém, aliada ao poder romano – se sente segura, encobrindo a
realidade exploradora com ritos e rituais bonitos no Templo, como se Deus
aprovasse o sistema vigente.
Mais uma vez Jesus, através de uma ação
profética, desmascara a deturpação da religião, por parte das autoridades de
Jerusalém. Embora o templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias
pomposas bem freqüentadas, a sua religião era vazia, pois escondia o rosto
verdadeiro de Deus. As Igrejas correm este mesmo risco nos dias de hoje. Além
da descarada exploração financeira dos seus fiéis por parte de alguns grupos
religiosos (cuidemos para não generalizarmos aqui e que a mesma coisa não
aconteça na nossa Igreja!), aos poucos muitas comunidades cristãs perderam a
sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo
neoliberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o
Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode
questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu uma vez o Frei Beto,
a religião assim “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria
pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera
católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores
fundamentais na constituição da igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção
dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral
no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não
incomodam as consciências”.
Assim,
o texto de hoje nos traz um alerta - Jesus não veio compactuar com uma religião
exploradora, alienadora, aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus da
Bíblia, libertador dos males e de toda exploração; ele veio “para que todos
tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Uma religião que abandonasse
a sua função profética seria tão traidora como a religião decadente das elites
do Templo. Diante da arrogância despótica dos que se consideram “donos” do
mundo e dos seus recursos, por causa do seu poderio militar e econômico, as
vozes do Papa Francisco, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soam
profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos que a religião não se confina à
sacristia, mas tem que levar à prática dos princípios do Reino, que recusa
legitimar o derramamento de sangue e a destruição do meio-ambiente em troca de
petróleo e do lucro.
Neste domingo em que a Igreja celebra a
dedicação da “Igreja-Mãe” – a Basílica de São João de Latrão, em Roma -
verifiquemos o estado de reparo da nossa Igreja Viva - feita não de pedras
talhadas e construções imponentes, por tão bonitas e até necessárias que possam
ser, mas de discípulos/as-missionários/as, inspirados pela pessoa e projeto de
Jesus. Aproveitemos do ensejo para reavaliar a nossa prática religiosa, para
que não caiamos na desgraça do Templo - bonito, atraente e emocionante, mas
vazio de sentido.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br

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